F1, F2, F3, F4, F5. A internet trata isso como “categoria de ciclone”. Não é.
A letra F vem de Fujita — Tetsuya Theodore Fujita, o meteorologista que em 1971 criou a escala para medir tornado, não furacão. Furacão, tufão e ciclone tropical usam outra régua: a Saffir-Simpson, que vai de Categoria 1 a 5. Mesma ideia de número. Fenômeno diferente. Estrago diferente. Duração diferente.
Um furacão categoria 5 pode durar dias e varrer um litoral inteiro. Um tornado F5 pode durar minutos e apagar um bairro. Confundir os dois é o primeiro erro desta história.
Esta postagem explica o que é o tornado, como ele nasce, o que cada nível da escala F (e da prima EF) faz com casa, carro e árvore — e se o F6 existe de verdade.
O que é um tornado

Tornado é uma coluna de ar em rotação violenta que desce da nuvem e toca o chão.
Não é a nuvem inteira girando. É um tubo. Às vezes fino como uma corda. Às vezes largo como um estádio. O recorde de largura — El Reno, Oklahoma, 2013 — passou de 4 km. No Brasil, o que mais se vê é o funil clássico, menor, rápido, e ainda assim capaz de destruir rua inteira.
Três nomes que a reportagem mistura:
- Tornado: coluna no continente (ou tromba-d’água, se está sobre o mar/lago).
- Ciclone tropical / furacão / tufão: sistema enorme sobre o oceano, centenas de quilômetros, dias de vida. Escala Saffir-Simpson.
- Ciclone extratropical: o “ciclone” do Sul do Brasil. Pode trazer vento forte, granizo e, em alguns casos, o ambiente que gera tornado. Ele mesmo não é o funil.
A escala F mede o funil. Não o ciclone.
Como se forma
O receita clássica — a que produz os F4 e F5 — é a supercélula.
- Ar quente e úmido embaixo, ar frio e seco em cima. A atmosfera fica instável.
- O vento muda de direção e de velocidade com a altura. Isso se chama cisalhamento. O ar começa a rolar deitado, como um tubo invisível no céu.
- A corrente ascendente da tempestade levanta esse tubo. Ele fica em pé. Nasce o mesociclone — o coração que gira dentro da nuvem.
- Embaixo, a nuvem desce num wall cloud, a nuvem de parede.
- Se a rotação aperta e toca o solo, é tornado.
Nem todo tornado vem de supercélula. Existem landspouts e trombas mais fracas, comuns no Brasil, que nascem de tempestades comuns. Quase sempre F0 ou F1. Os monstros — F3 para cima — pedem supercélula.
Um detalhe que importa na hora do susto: o tornado não “puxa” a casa para o céu como no filme. O vento destroça a estrutura, transforma telha e madeira em projétil, e a queda de pressão faz o resto. O que voa não é mágica. É física com 300 km/h.
F ou EF? As duas escalas
Escala Fujita (F) — 1971. Ainda é a mais citada no Brasil.
Escala Fujita Aprimorada (EF) — 2007, oficial nos EUA. Recalibrou os ventos porque a F original superestimava o F4 e o F5.
As duas vão de 0 a 5. Nenhuma tem F6 oficial. O número não vem de um anemômetro no meio do funil. Vem do estrago: o que aconteceu com telhado, parede, árvore, poste, carro. Por isso um tornado brutal no meio do campo vazio pode “nascer F3 no papel” mesmo com vento de F5 no radar — não havia casa para provar o resto.
No Brasil a classificação ainda é feita no olho do dano, com radar quando existe. O Simepar e grupos como a PREVOTS usam sobretudo a F clássica. Rio Bonito do Iguaçu, em novembro de 2025, foi a F4.
Abaixo, os ventos da escala F original, a que o leitor brasileiro encontra na reportagem. Entre parênteses, o equivalente aproximado na EF.
F0 — dano leve

64 a 116 km/h (EF0: 105 a 137 km/h)
Galho grosso quebra. Árvore de raiz rasa tomba. Placa de trânsito entorta. Telha solta. Casa de alvenaria, em geral, só leva susto.
É a maioria dos tornados do mundo — e do Brasil. Quase ninguém filma. Quase ninguém morre. Ainda assim é tornado.
F1 — dano moderado

117 a 180 km/h (EF1: 138 a 177 km/h)
O telhado começa a perder capa. Janela estoura. Porta de garagem cede. Casa pré-fabricada ou de madeira leve sai do lugar ou vira. Carro na rua pode ser empurrado.
Aqui o fenômeno deixa de ser “vento bravo” e vira ocorrência de defesa civil. No Sul e no Centro-Oeste, F1 já derruba galpão agrícola inteiro.
F2 — dano considerável

181 a 253 km/h (EF2: 178 a 217 km/h)
Telhado de casa bem construída sai. Árvore grossa parte ou arranca. Trailer e casa móvel deixam de existir. Carro levanta. Objeto leve vira míssil.
F2 é o primeiro nível que a meteorologia chama de forte. Se o funil atravessa a cidade, tem ferido. Tem telhado na rua do vizinho. Tem poste no chão.
F3 — dano severo

254 a 332 km/h (EF3: 218 a 266 km/h)
Andar inteiro de casa boa desaparece. Trem descarrila. Árvore perde a casca. Carro pesado é atirado. Shopping e galpão industrial sofrem dano estrutural.
A partir daqui a sobrevivência depende menos de “segurar a porta” e mais de estar abaixo da linha do vento: porão, banheiro interno, fossa de concreto. Muro não segura F3.
No Brasil, F3 já foi documentado várias vezes. Continua raro. Não é lenda.
F4 — dano devastador

333 a 418 km/h (EF4: 267 a 322 km/h)
Casa de madeira bem feita vira laje. Às vezes a laje também some. Carro vira projétil. Bairro inteiro parece ter passado por explosão, não por vento.
Este foi o andar de Rio Bonito do Iguaçu (PR) em 7 de novembro de 2025: F4, seis mortes, centenas de feridos, cerca de 90% da área urbana danificada. O laudo do Simepar subiu de F3 para F4 depois da análise fina — o pico estava em subvórtices, aqueles funis menores que giram dentro do funil maior. Por isso uma casa de alvenaria saiu em pé e a vizinha virou entulho.
F4 no Brasil não é Hollywood. É Paraná.
F5 — destruição incrível

419 a 512 km/h (EF5: acima de 322 km/h)
O nível que a escala chama de incredible. Casa bem construída é varrida da sapata. Fica o concreto no chão, limpo. Asfalto pode ser arrancado da rua. Caminhão e vagão viajam. Árvore vira palito descascado. Escombro some — não porque evaporou, porque foi triturado e carregado.
F5 é menos de 0,1% dos tornados classificados. Nos EUA, nomes como Joplin (2011) e Moore (1999, 2013) estão nessa prateleira. No catálogo brasileiro usado pela PREVOTS, F5 oficial ainda não aparece. Isso não significa que o vento nunca chegou lá. Significa que o dano-prova, no padrão da escala, ainda não foi fechado assim.
Um ponto que a escala esconde: El Reno 2013 teve radar móvel lendo cerca de 480 km/h e foi classificado EF3 no papel, porque o pior vento passou em campo aberto. A escala mede destroço, não o número do radar.
Existe F6?

Na prateleira da teoria, sim. Na oficial, não.
Fujita desenhou a escala original pensando até F12 — uma ponte entre a escala Beaufort e a velocidade do som. Na prática ele só usava F0 a F5. O F6 ficou no papel como “tornado inconcebível”: 513 a 610 km/h. O próprio Fujita escreveu que F6 ou mais forte não era esperado na Terra. Se um dia ocorresse, o tipo de dano seria difícil até de imaginar — geladeira, caixa-d’água e carro virando míssil secundário contra o que ainda estivesse de pé.
Ele brincou com a ideia em dois casos:
- Lubbock, Texas, 1970
- Xenia, Ohio, 1974 (Super Outbreak)
Os dois foram rebaixados. Ficaram F5. Nunca houve F6 oficial no banco do National Weather Service. A escala EF, de 2007, acaba no EF5 e nem lista EF6.
Por quê? Porque a casa de madeira já sumiu no F5. Não existe “mais destruído que varrido da sapata” para justificar um degrau novo só com dano. Vento acima de 500 km/h pode existir dentro do funil — o radar já viu na casa dos 480. A classificação, do jeito que a regra está escrita, para no 5.
Então a resposta honesta:
- F6 teórico: Fujita deixou a gaveta.
- F6 oficial: não existe.
- Vento de F6 já medido em radar: quase, nunca batizado.
- Precisa ter medo de F6 no Brasil: não. Precisa ter respeito de F3 e F4, que já acontecem aqui.
E o furacão? A outra escala de 1 a 5
Só para o número parar de mentir na manchete:
| Fenômeno | Escala | O que mede |
|---|---|---|
| Tornado | Fujita / EF (F0–F5) | Dano local, minutos, metros a quilômetros de largura |
| Furacão / tufão / ciclone tropical | Saffir-Simpson (Cat. 1–5) | Vento sustentado no oceano, dias, centenas de km |
| Ciclone extratropical do Sul | Não usa F | Frente, vento, chuva — pode gerar tornado |
Categoria 5 de furacão é vento sustentado acima de ~252 km/h. Isso é faixa de F2/F3 de tornado, mas espalhado numa área do tamanho de um estado, com maré de tempestade. O número 5 nas duas escalas não é o mesmo monstro.
O Brasil no mapa
Tornado no Brasil não é “coisa de filme americano”. Concentra no Noroeste gaúcho, Oeste catarinense, Oeste paranaense e sul/centro de Mato Grosso do Sul. A PREVOTS catalogou mais de mil registros de dano tornádico em poucos anos. A maioria é F0 e F1. F4 existe. F5, no papel, ainda não.
O que fazer se o céu fechar verde-escuro, a pressão cair e o barulho virar trem:
- Esqueça a janela e a varanda.
- Vá para o cômodo mais interno, no nível mais baixo, longe de vidro.
- Banheiro, corredor, porão.
- Proteja a cabeça.
- Depois do funil, o perigo continua: fio no chão, gás, madeira prego para fora.
Conhecer a escala não para o vento. Evita duas bobagens: achar que F1 é o fim do mundo — e achar que F4 “não acontece aqui”.
Conclusão
A escala F não classifica ciclone. Classifica o funil.
F1 tira telha.
F2 tira o telhado.
F3 tira o andar.
F4 tira o bairro.
F5 tira até o desenho da casa no chão.
F6 ficou no caderno do Fujita.
O que o Brasil já viu de perto foi o F4. Isso basta para tirar o fenômeno da prateleira de curiosidade e colocar na de meteorologia de verdade: supercélula, cisalhamento, wall cloud, e um número que não se mede no olho do furacão — se mede no que sobrou da rua.
